Quando nascemos em uma cidade como Capebill, achamos que nosso destino está traçado. Temos a sensação de que nunca podemos sonhar além do que nos é permitido, nem querer que nossas vidas seja mais do que nos é imaginado.
Apesar de ser uma cidade relativamente pequena, Capebill recebia um bom número de visitantes no período da primavera, época em que a cidade ficava mais bonita. Seus campos verdes e o pôr do sol inacreditável, era uma referência.
Nunca teve uma primavera que eu não tivesse lembranças, sejam elas boas ou más, eu as tinha.
Sempre vivi rodeada das pessoas que amo, vivendo na única pensão da cidade que ficava a uns 10 km do centro da cidade. Em um lugar privilegiado pela natureza, que fazia seu espetáculo junto ao nascer e o pôr do sol.
Noite de sexta-feira, na pensão “Sol Nascente”, Clóvis e sua filha mais velha, Suzan, faziam a contabilidade no escritório.
- 800, 900, 1000 dólares em dívidas!
- Papai, nossa situação está cada vez mais difícil. Se não recebermos nenhum hóspede nos próximos dias, vamos ter que fechar a pensão.
Clóvis levanta exaltado e bate na mesa, causando susto na filha. Ele era tradicionalista ao extremo, por isso a cogitação da hipótese de perder sua casa era desesperadora, pois a pensão estava com sua família há cinco gerações. Mas a situação estava realmente difícil, ele admitia. Dívidas no banco, casa hipotecada e para piorar a situação, havia meses que a pensão não recebia hóspede.
- Não! Isso nunca! Eu vou dar um jeito!
Foi então que Clóvis pega seu casaco, chapéu e saiu sem dizer mais nenhuma palavra.
Neste exato momento, Ruth, sua esposa, se preparava para entrar no escritório trazendo uma bandeja, com um lanche para os dois. Clóvis passa por ela como se não a tivesse visto. Ela imediatamente recorre a Susan:
- Aonde o seu pai vai a essa hora?
- Ele não disse.
Ruth percebe a fisionomia preocupada de Susan:
- A nossa situação piorou não é?
- Vamos ter que cortar mais despesas e o pior de tudo, estamos prestes a perder essa casa.
Ruth levanta as duas mãos para o céu e diz:
- Que nossa senhora nos ajude!
- É preciso mais que ajuda divina mamãe. Se pelo menos o seu genro arrumasse um emprego. Até quando vamos ficar sustentando um marmanjo?!
- Eu já conversei com a sua irmã, ela vai voltar a falar com ele.
- Desde que se casou com a Lisa, ele não colocou um centavo dentro dessa casa. Só sabe sair para beber com os amigos e ficar noites fora. Porque ele não volta para a casa dos pais?! Afinal, eles são cheios de dinheiro.
- Você sabe muito bem que ele e os pais não se falam desde que ele se casou com a sua irmã.
- Se ele quer mordomia, que vá morar com os pais dele!
- E sua irmã como fica?
- Pelo menos em consideração à Lisa, ele podia pelo menos tentar ajudar, afinal é no banco dos pais dele que estão a maioria das nossas dívidas.
- Eu estou fazendo as minhas preces para nossa Senhora e ela vai nos mandar uma luz e vamos sair dessa situação!
- Se o papai perde essa casa eu nem sei o que ele pode fazer.
As duas se olham apreensivas e em seguida, Susan termina de guardar as papeladas, se despede de sua mãe com um beijo e vai se deitar.
Ruth por sua vez, vai até o altar de nossa Senhora que tinha em um canto da sala e começa a rezar. Ela era uma esposa muito paciente e religiosa, sempre tentava harmonizar a família e acalmar o temperamento forte do marido.
Enquanto isso, como era de costume, Lisa foi dar boa noite às suas irmãs e levar o remédio de Emily, que dormia naquele momento. Melanie, a filha caçula, estava dividida entre os deveres da escola e sua mente sonhadora. Quando vê a irmã entrando diz:
- O papai e a Susan ainda estão fazendo contas?
- Parece que a nossa situação financeira não está indo nada bem, acho que dessa vez chegamos no vermelho.
- Eu já falei para o papai vender essa casa e irmos todos para a cidade grande, assim todos os nossos problemas estariam resolvidos.
- Você quis dizer, os seus problemas estariam resolvidos. Você sabe muito bem que o papai nunca vai fazer isso, esse lugar é a vida dele!
Melanie guarda seu material e diz:
- Eu não vejo outra saída. O papai está devendo desde o banco até o armazém. Além disso, não aparece nenhum hóspede. Capebill não é mais a mesma, nem ladrão quer vir pra cá.
- Credo Mel!
- Mas é verdade! A cidade está às moscas, as pessoas preferem cidades mais agitadas, com mais movimento, aqui não acontece nada!
- Não se esqueça que Capebill é a sua terra natal.
- Eu não esqueço! Só que um dia, Capebill vai estar apenas na minha certidão de nascimento.
- Bom, Fica aí com os seus sonhos que eu vou dormir, boa noite!
Quando Lisa saiu, Melanie vai até o mural de seu quarto e fica olhando seus recortes de cidades e países do mundo, querendo que seus sonhos se tornassem realidade.
Eram quatro irmãs completamente diferentes, Melanie era a esperta e sonhadora, Emily era a filha meiga e tranqüila, Susan a filha mais velha e estudada e Lisa a que se adequava mais aos padrões da cidade e da família. Casou-se aos 18 anos e agora com 22 anos, ainda não tinha filhos. Era calma e carinhosa, sempre sonhou em casar e ter sua própria família, se espelhava em sua mãe, seguia as regras e os costumes. Seu marido Joey, era seu colega de escola e acabou tornando-se seu marido. Os dois viviam na pensão e ela lutava para manter seu casamento contra todas as prespectivas.
No dia seguinte...
Melanie tinha ido para a escola. Lisa e Emily ajudavam Ruth nos afazeres da casa, enquanto Susan estava na recepção fazendo contas. O silêncio tomava conta da casa, demonstrando o clima de preocupação em toda a família. Quando de repente, na cozinha, Ruth com muito cuidado olha para Lisa, que limpava o vidro:
- Onde está o seu marido filha?
Lisa sem olhar para a mãe, diz meio sem graça que ele estava dormindo. Ela tentava esconder que ele tinha passado a noite fora e chegado pela manhã. Mas sua tentativa foi em vão, pois Ruth conhecia a filha e mais ainda seu genro:
- Ele chegou mais uma vez no raiar do sol, não é?
Nesse momento Susan chega na cozinha e ao ver Lisa demorar a responder, diz:
- E ele por acaso faz outra coisa além de dormir fora de casa?
Lisa imediatamente diz:
- Ele não dormiu fora de casa!
- Estamos financeiramente quebrados e temos um parasita dentro de casa. Um homem barbado que não se mexe para procurar emprego, mesmo vendo a nossa situação crítica.
Lisa se sentia diminuída naquele momento, queria um buraco para se esconder. Sabia que sua irmã tinha razão, queria que tudo fosse diferente, mas não era por falta de tentativas e apesar de tudo isso, manter seu casamento estava cada vez mais difícil.
Ruth percebendo que aquelas palavras estavam magoando Lisa, repreende Susan imeditamente e finalmente Lisa consegue dizer alguma coisa:
- O Joey está procurando emprego, ele me disse!
- Eu cansei de te avisar Lisa, você não devia ter se casado com ele, eu sabia que você ia sofrer.
- Eu já disse que não quero ninguém se metendo no meu casamento.
- O seu casamento está dentro dessa casa, cheia de contas para pagar, com a casa hipotecada e correndo o risco de perder tudo o que temos.
Lisa pela primeira vez se exalta:
- Sabe de uma coisa? Toda essa ira, não pode ser só por causa da nossa situação financeira. Você fala assim porque é sozinha, amargurada, não tem ninguém, você tem inveja porque eu consegui um marido.
Surpresa com as palavras da irmã, Susan diz:
- Inveja de você? Nunca! Eu não quero passar a vida inteira lutando por um casamento que não devia nem ter começado. Prefiro ir para um convento!
Ruth começa a ficar desesperada com a discussão das filhas e interrompe com um grito alto e seco. Como não era de sua personalidade agir assim, imediatamente as duas pararam de discutir e olharam para a mãe surpresas.
- Vamos parar com isso, vocês estão se machucando sem motivos. Estamos em uma situação em que temos que estar unidas.
Foi então que Lisa sai correndo e chorando. Ruth se aproxima de Susan e diz:
- Você falou de um jeito como se a culpada de tudo o que está acontecendo fosse a sua irmã.
- De certa forma sim, ela está perdendo tempo tentando manter esse casamento. Tentando fazer com que acreditemos que o casamento dela é o melhor do mundo!
- Você pode ter razão filha, mas as suas palavras foram muito duras, reflita sobre isso e faça alguma coisa para remediar essa situação.
Susan finalmente parou de se esconder atrás de suas palavras e viu que realmente foi dura com sua irmã.
Enquanto isso... Melanie estava saindo da escola com sua amiga Claire. As duas sempre voltavam juntas, andando pela estrada de terra e apreciando a paisagem que tinha pelo caminho.
Espivitada e sempre alegre, longe de seu rígido pai, Melanie se sentia como um passarinho livre. Quando de súbito, ela entrega seus livros para Claire que surpresa pergunta:
- O que você vai fazer?
- Vou me livrar dessa camisa de força.
Melanie estava se referindo a sua camisa de gola fechada que fazia parte do uniforme da escola, que ela tira com uma rapidez de alguém que necessitava urgentemente de liberdade.
Claire espantada diz:
- Você só pode ser louca!
- Eu sou livre! Gosto de liberdade! Por que o espanto? Eu não estou pelada!
Claire acaba sorrindo com o jeito da amiga.
Enquanto isso... Cinco rapazes chegavam em Capebill naquele momento e procuravam um lugar para ficar, quando os indicaram a pensão “Sol Nascente”. Chegando em frente a pensão, o mais velho de todos, Scott diz:
- É aqui!
Nick- Que casarão!
Thomas- É uma casa antiga, pelas piastras devem ter sido construídas em 1928.
Nick- Falou a nossa enciclopédia ambulante! Diz sorrindo.
Thomas- Um pouco de cultura não faz mal a ninguém.
Alex- Vamos logo! Eu quero cair logo em uma cama bem fofinha e confortável.
John- Caminhar nesse sol escaldante não é fácil!
Scott- Vamos com calma! Primeiro eu vou lá dentro, vejo se tem quartos livres e vocês ficam por aqui.
ALex- Sim comandante!
Nick e Alex eram os mais jovens e alegres do grupo. Thomas era o mais sério e John, o apaziguador. Scott entrou na pensão, quando John diz:
- O lugar é bonito!
- A cidade é mesmo pacata, como nos informaram! Pelo menos aparenta.
Quando Nick diz:
- Ei Alex vamos dar uma volta pelos arredores?
Thomas diz:
- Vocês acabaram de ouvir o Scott dizer que é para ficarmos aqui.
- Você ouviu errado caro Thomas, o Scott disse para ficarmos ‘por aqui’. Vamos ficar por perto, prometemos não nos afastar!
Foi então que Nick e Alex saíram sem dar tempo para qualquer argumentação do amigo.
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